American Dream | Cap. I. Cheguei hoje à América. | by Mário Afonso | Nov, 2025

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Cheguei hoje à América.

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Embarquei no voo pela manhã, em Zürich. O dia não estava famoso mas depois de espreitar o Flightaware e perceber que não se avisinhava grande torbulência para atravessar o Atlântico, consegui acalmar um pouco o espírito. Pelo menos até o avião arrancar e me colar as costas à cadeira. A descolagem deixa-me tenso, cada vez mais. E há uma sensação mista de aventura e prazer de estar a ir de viagem, mas também existe uma tensão e um medo de poder não voltar caso algo corra mal no ar.

Penso que comecei a desenvolver esta sensação principalmente depois de emigrar para a Suiça, e também por ultimamente viajar, na maioria das vezes, sozinho. Em trabalho, mesmo que vá com colegas, não considero companhia, no sentido de alguém próximo que me traga conforto e um bem estar de casa. E quando vou a Portugal, normalmente viajamos em separado. Um vai de low cost, o outro vai na Swiss ou na Tap para levar a Gatinha na cabine. Talvez este medo recente seja, no fundo, o medo de perder o controlo, sobre o ar e sobre a vida.

Já no ar, a tensão desaparece com o avião já em velocidade de cruzeiro. Leitura, música, séries. Depois vem a comida, a bebida, o pouco espaço de manobra entre cada movimento. Passam para levantar o lixo e vive-se toda uma nova vida no ar, durante aquelas horas que ali se passa. Uma realidade diferente e que, faz até esquecer, em alguns momentos que se está a 12 mil metros de altitude.

Estou a caminho da América! Uau. Estou mesmo a ir para o outro lado do Atlântico. Pensava eu a espaços durante a viagem. Que sensação fantástica aquela de viver o presente de uma forma tão mágica em que te dás conta daquilo que está a acontecer. Estou mesmo aqui. E entretanto passaram 8 horas do dia, e já se vê a América. Estados Unidos da América, o sonho Americano.

As primeiras impressões, ainda no ar, estavam a ser espetaculares. Ao longe via a cidade de Boston e pensava mais uma vez: estou aqui! Não só por estar a ver Boston ao longe, pela janelinha do avião, mas por estar, pela primeira vez, a ver uma terra que nunca tinha visto. Não pode ser o mesmo estar na Europa, mesmo conhecendo vários países, do que estar na América ou noutro continente. Era mais neste sentido.

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Aterregem, e recomeça a tensão. O que será que vou encontrar na América, principalmente nesta fase em que o mundo está? Será que aterro ou pode acontecer alguma coisa?

O aeroporto de Philadelphia onde aterrava, servia de escala para o próximo destino. E quando se entra pela primeira vez em solo americano, é necessário passar pelos controlos de passaporte para cidadãos estrangeiros. Ora bem, será que vai correr tudo bem? Tenho tudo tratado por isso vai ser na boa. Dizia eu a mim próprio para acalmar os meus próprios nervos.

Entre pensamentos, distrações da mente e malabarismos de mim para mim, o avião aterrou com estrondo no solo mas tudo tranquilo. Apenas não foi uma daquelas belas aterragens suaves, que penso, só estarem ao alcance de alguns pilotos experientes e, talvez, cuidadosos e também dependendo das condições climatéricas.

Tenho 1 hora para o transfer. Deve ser na boa.

Controlo de passaporte, buscar as malas, entregar as malas, voltar a passar na segurança, ir para a porta de embarque. Se for tudo seguido é na boa.

Chego ao controlo de passaporte e, na fila, vem um Beagle farejar a bagagem que trazia na cabine. Achei muito giro o cão, gosto de animais. E senta-se ao lado da minha mala. Pensei logo: olha agora tenho droga queres ver? E mesmo sabendo que obviamente não tinha nada que me pudesse comprometer comecei a ficar incomodado com a situação e, no meu cérebro, que já não vinha de todo fresco, com a luta e autocontrolo da aterragem, começou a haver stress miudinho.

A Polícia que acompanhava o Beagle pergunta-me: “Do you have food?”

Food, pelo menos no Reino Unido, é como se referem a algumas drogas, por exemplo Cannabis, de acordo com algumas séries da Netflix a que já assisti.

Óbvio que isto me passou pela cabeça mas levei sempre tudo para o lado da comida obviamente. Mas como estava tão incomodado com a situação, já nem me lembrava se por acaso podia ter algum pedaço de comida na mochila. E disse-o. Abri a mochila, procurei enquanto falava com a senhora e o cão continuava ali sentado. Até que ela perguntou se tinha tido comida na mochila. Aparentemente o cão, como sentia o cheiro, bastava ter tido lá comida que era suficiente para ter aquele comportamento. Lá lhe disse que sim, que no avião tinha lá tido comida e sigaaa! Vamos lá mostrar o passaporte.

Não só queriam ver o passaporte como o visto, neste caso o ESTA, como queriam saber informações que já estão no ESTA, como por exemplo o propósito da viagem, de onde vem, para onde vai, registo de impressões digitais de todos os dedos das duas mãos, etc, etc, etc… mas tudo isto com uma vibe de muita desconfiança e autoritarismo. Não gostei.

Quando se submete o ESTA para ter autorização para entrar nos EUA, pedem inclusivé a morada para onde vamos, contactos de pessoas com quem vamos estar, o propósito da viagem, quanto tempo vamos ficar, se temos redes sociais e quais… e depois chegamos ao controlo de fronteira para verem o nosso passaporte e o visto e afinal começam com a lenga lenga toda. Mas quando mostrei o ESTA disse-me: “Isso eu tenho aqui!”.

– Então se tens dá-me cá o passaporte e deixa-me ir embora que tenho outro avião para apanhar! — pensei eu.

Lá me deixou ir depois de uns belos minutos ali.

Levantar as malas, voltar a entregar para seguirem para o próximo voo. E eis que quando ia para passar na segurança outra vez tenho de ir não sei onde para me imprimirem um novo bilhete porque aquele não batia certo com o passaporte, ou o raio. Foi o que percebi.

Lá me encaminharam para um balcão, a senhora com o meu passaporte na mão e o bilhete na outra, lá ia preenchendo uns dados quaisquer no computador e no fim diz-me: Pode seguir e leve o mesmo bilhete. Assumi eu que ela introduziu, ou reintroduziu os dados no sistema e estava feito. Lá segui, passei a segurança e estava tudo ok, até porque o voo se viria a atrasar em cerca de 2 horas. A aeronave viria a ter um problema que não conseguiram solucionar a tempo, e isso fez com que tivesse de esperar pela próxima. Antes isso que arriscar meter no ar um avião com problemas!

Esta vibe de desconfiança e autoritarismo estava no ar, foi um sentimento. E não estava confortável, não estava a curtir. Esperei pelo voo e aqui vou eu a caminho de Knoxville, o meu destino final nesta viagem, já com vontade de me ir embora para a minha zona de conforto. Mas tenho uma semana inteira para trabalhar e também conhecer o máximo possível da cidade, da cultura americana nesta zona do país e perceber se, quando cheguei, o meu cansaço e bad feelings contribuiram para uma primeira impressão de vibes com as quais não me identifico. Talvez o primeiro impacto com um novo país diga menos sobre ele e mais sobre o estado em que nós chegamos depois de uma viagem longa.

Veremos.

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